quarta-feira, 21 de maio de 2025

O Som das Cores, o Silêncio da Forma: Uma ressonância entre sentidos

 O Som das Cores, o Silêncio da Forma: uma ressonância entre sentidos


Nas bordas entre escuta e visão, há uma zona de interseção onde a experiência estética se expande e os sentidos deixam de ser compartimentos isolados. É nesse terreno fértil que se encontram as proposições de Kandinsky, Chion e John Cage, três autores que, a seu modo, constroem pontes entre o visível e o audível, o ruído e o silêncio.

Kandinsky, em Do Espiritual na Arte, atribui às cores uma potência expressiva comparável à música. Seus círculos e linhas vibram como acordes emocionais, provocando no observador uma correspondência sensível que transcende a superfície da tela. Na imagem da bicicleta policromática que evoca sua estética, vemos não apenas uma explosão cromática, mas uma partitura visual que poderia ser escutada. É a imagem como vibração.

Chion, ao teorizar a audiovisão, oferece o elo conceitual entre Kandinsky e Cage. Para ele, o som, quando acoplado à imagem, reorganiza sua função sensível e simbólica. A escuta deixa de ser apenas auditiva e se torna visualmente modulada. O som colore a imagem — e vice-versa. Sua ideia de escuta acusmática (escutar sem ver a fonte sonora) reforça essa fusão dos sentidos e abre espaço para o inaudível da imagem e o invisível do som.

John Cage, por sua vez, radicaliza a experiência auditiva ao propor o silêncio como música — ou melhor, como abertura para o mundo sonoro que nos cerca. Em sua peça 4'33", o gesto de não tocar se transforma na mais potente escuta expandida. No silêncio, ouvimos tudo. Na imagem distorcida da bicicleta abandonada sob uma árvore — melancólica, fragmentada, carregada de ausência —, reconhecemos esse gesto: a escuta do mundo enquanto imagem em suspensão.

Essas duas imagens contrastantes — uma saturada de cor e vibração, outra desbotada, quase fossilizada — funcionam como metáforas visuais para os estados da percepção. De um lado, o som como luz. De outro, a imagem como silêncio. Ambas propõem uma ressonância cruzada entre os sentidos: a bicicleta não é apenas um objeto, mas um dispositivo de deslocamento sensível entre campos sensoriais.

Penso que ao reorganizar os pensamentos e aproximar esses três pensadores, percebo que escutar e ver não são ações separadas, mas fenômenos interdependentes. A percepção multissensorial que emerge da da escuta filosófica de Cage, da forma e cores da obra de Kandinsky e da análise audiovisual de Chion propõem uma arte que não é apenas para os olhos ou para os ouvidos. Esta, nos insere em um corpo sensível em estado de presença.

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